Amor do Interior

por Lena Lopez 

Eu nasci em Porto Alegre, mas a minha família paterna é do interior do Rio Grande do Sul, desde pequena eu passava as férias escolares nas casa dos meus avós, eles eram um casal de velhos, com a idade bem avançada e sempre tinham um empregado para fazer os serviços no sítio onde moravam, cuidar da parelha de bois, as vacas de leite, as ovelhas, a plantação. Eram 12 hectares de campos e coxilhas, entre as cidade de Encruzilhada do Sul e Dom Feliciano. Naquela época, ainda não havia chegado por lá a energia elétrica e a noite a iluminação era a base de lampião de gás ou querosene. O lugar é alto, no verão, durante o dia é muito calor e o sol queima muito mais do que em uma praia, a noite é fria e o amanhecer é gelado. O nascer e o por-do-sol são lindos, os campos são abertos e as coxilhas dão o toque final à paisagem no horizonte. No meio de tudo isto, a paz e o silêncio são bençãos enormes para se desfrutar, ouvindo o vento e o canto dos pássaros. A verdadeira vida na roça!
Eu havia terminado o segundo grau no ano anterior e prestado o vestibular para jornalismo, resolvi ir para a casa dos meus avós, a fim de descansar um pouco. Alguns dias antes, eu havia escrito para o meu avô, ele fazia questão de saber com antecedência, pois gostava de me esperar à beira da estrada e me abraçar logo que eu descia do ônibus e levava junto o empregado, o qual tratava muito mais do que um amigo, quase como um filho, para que carregasse as minhas malas.
Naquele dia eu desci e estranhei, o meu avô estava lá e ao seu lado um outro rapaz. Mais tarde fiquei sabendo que o Nestor havia casado e mudado de cidade, meu avô contratou outro empregado, o Pedro. Um rapaz alto e moreno, tinha um jeito muito simples e bem atencioso, como outros rapazes do interior, bem comum.
Se existe algo que causa alvoroço no interior, é a chegada de alguém da cidade, da capital do estado então, é uma celebridade e durante a caminhada da beira da estrada, até a casa do meu avô, os curiosos que viram o ônibus parar, miravam seus olhos para mim e as minhas amigas de infância corriam para matar as saudades. Eu já estava com dezenove anos e desde pequena era a mesma coisa, cada férias passadas na casa dos meus avós, mais amigas eu conhecia, brincávamos juntas e depois que crescemos, não perdíamos um baile à luz de lampião!
Chegamos na casa, minha avó já me esperava com tudo prontinho, o banho, café, bolinhos, pão feito em casa, doces em conserva, geleias, coisas que eu gosto até hoje. Eu me sentia a rainha da roça! Conversamos até a hora do jantar e depois fomos dormir.
A noite é longa, a falta de energia elétrica faz as pessoas dormir cedo e acordar até mesmo antes dos primeiros raios de sol. Pela manhã depois de acordar e fazer o desjejum, meu avô me chamou e como era de seu costume gritou:
- Pedrinho, traz o presente da Lenita!
Após alguns minutos o rapaz apareceu, trazendo já encilhada uma égua baia ruana, cor de café com leite, com as patas e a crina branca.
- Minha neta - disse-me ele - eu sempre soube que este era o teu sonho!
Eu não cabia em mim de alegria, sem demora monte na potrilha e do alto reparei no rapaz, que segurava a égua pelo buçal, pela primeira vez.
Um gaúcho, que não era como os outros, vestia-se de um jeito diferente, uma camisa branca bem passada, bombacha cinza uruguaia, alpargatas nos pés, um lenço italiano com nó namorado aberto no pescoço e o chapéu minuano atirado às costas, cabelo escuros e bem penteados, os olhos negros e a pele queimada do sol, em nada se parecia com o garoto que eu vi na tarde anterior. Alguns dias mais tarde, conversando com meu avô fiquei sabendo, ele seguiu os conselhos do velho, que sempre dizia:
- Gaúcho tem que ser macho na hora da lida, depois tem que virar gente. Ficar limpo e asseado, para arranjar uma guria bonita e de família, se não for assim, casa com porcaria!
Dei com os tornozelos nos costados da égua e saí a trotear pelos campos.
Assim passei os meus dias, todas as tardes cavalgava alegre, sentindo o vento no rosto. As semanas passavam e nos fins de semanas os bailes eram sagrados. Aos sábados à tarde, a casa dos meus avós recebia as visitas das gurias dos sítios vizinhos, eram quatro meninas, minhas amigas desde a infância e vinham aproveitar os meus dotes de maquiadora. Nos bailes elas pareciam princesas perto das outras, que tinham os rostos rebocados de ruge e batom. Para deixá-las em evidências, eu me maquiava bem leve e vestia um vestido de prenda bem simples, de chita. as vezes o baile era longe e íamos à cavalo.
Em um desses bailes, voltamos para casa com o dia amanhecendo, estávamos acompanhadas por Pedro, aos poucos elas foram nos deixando, conforme vencíamos a estrada, uma a uma foi ficando em casa, ficamos eu e Pedro sozinhos. Íamos lado a lado, o barulho dos cascos quebrando o silêncio do dia que estava nascendo.  Muitas vezes, depois que cheguei de viagem, notei que Pedro ficava me observando e eu também, sentia algum interesse por ele, alguma coisa naquele garoto, que não sei explicar, me atraia muito.
Dei de rédeas e Nina tomou outra direção:
- Lena - falou Pedro - aonde tu vais à esta hora?
- Vou no Ladrão, quero ver aquele riacho e lavar o meu rosto!
- Estás louca?
- Não, vais comigo ou não vais?
- Seu Osório não vai gostar?
- Meu avô? Ahahahaha!!! Bem capaz!
- Melhor ir para casa...
- Estás com medo peão? 
- Não!
- Então o último a chegar paga a prenda!
- O que?
- Se tu perder, quero o lenço suado!
- E se eu ganhar?
- Ganhas um beijo!
Estuquei a potrilha e Nina desabalou numa disparada, ouvia atrás o barulho das patas e o relincho do cavalo de Pedro, eu sabia que não ganharia a carreira e mesmo que pudesse eu a perderia de propósito, eu havia imaginado e idealizado a situação. Durante o baile, ao dançar com ele, ouvir a sua respiração perto do meu ouvido, sentir seu peito encostado aos meus seios, seus braços me envolvendo e suas mãos em minhas costas, haviam me excitado. Durante o caminho de volta o movimento de Nina e os meus pensamentos me deixaram incendiada e o desejo tomou conta de todo o meu corpo. Ele me ultrapassou, perto do riacho, eu deixei o galope e passei para o trote, quando cheguei, ele havia desapeado e me esperava. Parei ao seu lado e ele me ajudou a desmontar, segurando-me pela cintura. Deslizei de cima da égua, quase junto a ele. Enlacei os braços em seu pescoço e o beijei. Foi um beijo demorado, do jeito que eu esperava, cheio de ternura e carinho.
- Pensei que  era só um beijo no rosto!
Calei-o colocando o meu indicador sobre os seus lábios e o beijei novamente. Dessa vez minhas mãos passearam por suas costas, minhas unhas cravaram-se em seu peito, meus braços o apertaram contra mim. Não deixei que o beijo parasse e desabotoei a sua camisa. Depois beijei-lhe o peito. Sua boca ganhou minha nuca, suas mãos os meus seios. Nos despimos um ao outro e fizemos de cama o meu vestido de prenda. Não transamos, fizemos amor, foi um dos melhores papai-e-mamãe da minha vida. Enquanto ele me possuía, entrava e saia, o riacho cantarolava para nós, os pássaros pareciam tocar uma sinfonia para nós. Ele ofegava sobre o meu corpo, o frio da manhã já não maltratava nossas peles, senti-o mais entumescido dentro de mim e depois pulsante, ele havia chegado ao orgasmo e me deixei gozar como nunca. Por um tempo ficamos parados, nos beijamos novamente com o seu peso sobre o meu corpo.
Já havia amanhecido e tínhamos que ir para casa, no caminho ele permaneceu calado e perto de casa me falou?
- E agora, o que nós vamos fazer? Como vou te olhar, te avô...
Interrompi.
- Agora gaúcho, daqui uns dias eu vou embora, sou da cidade, estou acostumada com isso. Seremos os mesmos e o que aconteceu, fica entre nós!
Foi a últimas férias que passei no interior, alguns meses depois meu avô faleceu, minha avó veio morar conosco próximo a Porto Alegre e não tardou também para ir, talvez por estas coisa dos amores antigos, que somos incapazes de entender, depois que um se vai, o outro definha de saudade, na verdade parece que um segura o outro. Meu pai deixou a sua parte das terras para o meu tio, a Nina eu dei para uma prima e Pedro casou-se com uma das minhas amigas! 

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