A prostituta que lia!

por H. Thiesen 

Era uma noite de inverno, fria e úmida, uma garoa fina e teimosa caía sobre a rua escura. Ela não podia faltar, apesar de tudo, do tempo, do cansaço e da falta de vontade, haveria de dar prazer aos homens que a procurassem e por que não, mulheres também.
No seu pensamento e devaneios, o seu trabalho servia-lhe para disfarçar as carências e aliviar as dores da sua vida. Mesmo com as feridas de sua alma expostas, seu olhar era de uma criança perdida em meio a uma multidão de estranhos. Debaixo do casaco de pele já bem maltratado, ela trajava uma lingerie de seda preta, com detalhes transparentes. Já não era mais adolescente, passava dos trinta, mas ainda carregava um certo encantamento de uma menina.
Enquanto caminhava, pensava como transformara-se numa mulher da vida e isso, nem mesmo ela sabia, pois foi da noite para o dia. Não era fria, apenas não demonstrava os seus sentimentos, mas guardava dentro de si as muitas angústias, os amores não vividos e muitos sonhos desencantados. Entretanto, como todas as mulheres, ela continuava sonhando e tinha para ela um conto de fadas, com direito à príncipe encantado. Prostituta, mas no fundo acreditava em uma vida melhor e para isso rezava todos os dias.
Perdera-se ainda novinha com um primo e gostou tanto, que acabou ganhando a vida com sexo.
Na esquina de sempre, escolhia o mesmo canto, sob uma lâmpada fraca, escorada em uma parede, com as pernas à mostra e os seios sob o generoso decote do casaco entre-aberto. Na bolsa, sempre um livro, que entre um cliente e outro, atrevia-se à correr-lhe as palavras, numa leitura cuidadosamente silábica e com muita dificuldade para juntar as frases.
Os programas ocasionais rendiam-lhe o sustento, pagava  o quarto, comprava comida e vez em quando uma roupa nova, para trocar a surrada. Podia viver sem amor, até o dispensava, mas nunca prescindia de um trago para afogar as mágoas e espantar o frio e nem o cigarro, para acalmar-lhe a ansiedade.
Desapegara-se das culpas do seu modo de vida. Não queria ser esposa e nem mãe. O seu destino era cuidar de si mesma e sua sina era a solidão. Orgulhava-se de nunca ter provado das drogas e vacinara-se contra os amores não correspondidos. Apegava-se à quase nada, a não ser sua intensa paixão pelos livros. Esses mais do que tudo, não podiam faltar.
Não gostava de enterros, não ia à cemitérios, preferia os vivos, o ronco dos carros nas ruas,  o assovio dos clientes e as risadas ruidosas das companheiras de noites.
Todas as noites era assim, um cliente e outro e entre eles o livro, que as vezes a fazia esquecer de quem era. Perdia clientes e ganhos se enterrando nas letras. Sonhava que ainda era criança, que brincava com a boneca, a sua amiga inseparável. Fechava os olhos e caía num abraço, apertando o livro nos seios. Por um momento se esquecia de onde estava e o que fazia, não abria os olhos por nada, para não se perder de sonhar.
Aquela mulher sonhadora, que quando pequena, olhava para as estrelas, via a chuva pela janela e admirava o luar, não tinha espaço no mundo da noite. Enfim, a menina quem nem mesmo o mar conhecia e ouvia o barulho das ondas colando o ouvido a uma concha perdida, envolveu-se em mistérios por trás dos seus sonhos inacabados e do abandono, transformara-a numa dama da noite. Realmente ela mudara.
A boneca de pano, companheira da infância, perdera-se nessa mudança e deixara-a ainda mais solitária. Ela perdera a dó e nem pena sentia, com a solidão aprendera o silêncio e a arte de escutar. Deitava o sexo, quase nunca falava, mas muito escutava o que lhe contavam na cama. Era prostituta, mas uma mulher muito sábia. Não tinha posses, mas tinha tudo, pois no seu íntimo guardava segredos, muitos sigilos do mundo. Já ouvira tantas coisas, escutara tantas histórias, que de longe era capaz de decifrar as mentiras e o faro apurado mostrava-lhe os medos. Não os seus medos, pois eles já estavam domados e até enterrados, num canto perdido da sua alma.
Ela era livre, perdeu os medos com as palavras que leu nos seus livros, nas experiencias que teve nas esquinas e em cima das camas.
Do seu jeito, ela era feliz. 
O tempo passou, o seu corpo pediu para parar.
Um dia dos seus livros ela retirou as palavras, rabiscou-as em um papel amassado e aconteceu uma outra mudança. Uma metamorfose que levou-a de novo aos sonhos, milhares de fantasias, a prostituta escreveu um poema e transformou-se em poeta! Depois do primeiro veio-lhe outros e outros, escrevia um poema atrás do outro. O dedos que outrora seguravam os pênis, então os trocaram, pela pena! Com a pena na mão, ela passou a escrever sem pena. Poemas, poemas e poemas! Finalmente, ela se fez mais feliz!

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3 comentários :

  1. Um dos contos mais belos que li até hoje. Profundo, descrevendo com elevada sapiência, a vida de uma prostituta. Poderá ser apenas imaginação de quem escreve, mas a verdade é que nos momentos mais solitários de uma prostituta podem acontecer leituras que tornem sábia a dita. Inclusive quantas vezes uma prostituta não apanha papeis velhos caídos no solo a fim de lendo se entreter nos momentos de maior solidão. Gostei, gostei, gostei

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  2. Apenas uma palavra: Brilhante. Adorei forma como descreve sobre a vida, mesmo que fictícia, de uma prostituta. Adorei

    Espero por si= http://anseiosedevaneiossexuais.blogspot.pt/
    Beijoos e bom ano de 2016

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  3. Brilhante texto, algo mesmo fantástico mesmo, gostei de ler!!

    http://0provocador.blogspot.pt/

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