Jackeline

por H. Thiesen 

Quando ele nasceu todos sorriram, pegaram-no no colo, beijaram e o acalentaram. Todos não tinham dúvidas, era um lindo menino e se parecia muito com o pai.
Enquanto crescia, conhecia-se aos poucos, mas algo estava errado, via-se no espelho um menino, apenas o corpo, pois a alma era feminina. Queria dissuadir-se desse problema, durante o dia trocava os brinquedos, jogava futebol, brincava com os seus carrinhos, mas à noite na cama sonhava com fadas e bonecas.
Sua tenra idade era insuficiente para compreender o que lhe acontecia, mas percebia que não gostavam do jeito que se portava e como falava. A sua incapacidade de compreensão abriu-lhe as portas para o ódio e mesmo pequeno, sentia raiva de si e do mundo. O seu rancor aumentava, quando a família tentava modificá-lo e obrigá-lo a fazer algo totalmente ao contrário do que ele era. Mesmo encolerizado, tentava se ajustar e fazer o que diziam-lhe ser normal.
Com o passar do tempo, descobriu que fazendo o que os outros queriam, não estaria sendo ele mesmo, mas um ser escravizado pelos princípios dos outros. Teve algumas namoradas e fez sexo com elas, mas eram incapazes de satisfazê-lo. Descobriu então, o que significava amor-próprio.
Não obstante à sua juventude e já compreensivo da sua situação, mas encolerizado, sentia que orgulhava o pai e a mãe, por agir da forma como eles queriam. Ao mesmo tempo sofria com a duplicidade, mostrava à todos a virilidade que não havia nele e escondido, preferia a companhia de rapazes e deitar-se com eles, ao invés de meninas. Durante o dia comportava-se como um verdadeiro homenzinho, vestia-se e agia como tal. À noite, na solidão do seu quarto, retirava do esconderijo as lingeries, vestia-as e passava longas horas na frente do espelho, admirando o seu corpo, que àquela altura, desenhava alguns traços femininos.
Sentia-se sozinho, incompreendido e desejoso de mostrar aos outros quem realmente era. 
Seus braços tenros queriam afago de braços másculos, seus olhares buscavam rapazes e voltavam para dentro dele sem respostas e envergonhados pelos sentimentos que externavam.
As poucos compreendeu que dentro dele havia um tormento e uma solidão imensa à devorá-lo, decidiu dar fim ao seu sofrimento. Não mais aceitava as explicações, as morais conservadoras e conceitos simplórios. 
- Imoral - pensava ele - é ser quem não sou! 
Comprou um vestido, o mais bonito que encontrou, a lingerie mais cara e linda, sapatos de salto e meias de seda. Voltou para casa, roubou as jóias da mãe, uma gargantilha e brincos de pérolas, aproveitou e levou junto a maquiagem, cuidando para pegar o batom mais vermelho. Foi ao banheiro e levou a navalha do pai.
Na solidão do seu quarto, vestiu-se como princesa, cuidando e não esquecendo de nenhum detalhe. Do rosto aos pés, vestiu-se e sentiu-se finalmente o que era. O garoto sumiu e no espelho surgiu, Amélie!
Sentou-se na cama, olhou para a lâmina e a juntou. Esticou um dos braços e encostou-a ao pulso, mas quando sentiu o fio da navalha e a primeira gota de sangue brotar, arrependeu-se.  
Olhando o pequeno filete de sangue em seu pulso, percebeu-se covarde, agindo do jeito que todos queriam que agisse. Naquele momento, descobriu como era odiado, como desejavam que ele se destruísse e deixasse de ser uma vergonha. E o ódio que sentia por si mesmo avultou-se novamente em seu coração, sentiu raiva de tudo e de todos! Viu que a solidão do seu quarto, era o único refúgio para se sentir ele mesmo. Fugiu de casa e nunca mais voltou.
Todas as noites vestia-se e saia pelas sombras, encontrava mulheres e homens caminhando pela rua, carregava a navalha consigo e procurava primeiro por rapazes, com os quais fazia sexo, satisfazia-os, satisfazia os seus instintos e depois que os deixava, buscava por vítimas. Suas vítimas eram mulheres, como ele sempre queria ser, mas não poderia. Todas eram prostitutas solitárias à espera de clientes em ruas escuras. Primeiro às estrangulava, depois cortava-lhes a garganta e finalmente mutilava-lhes o corpo.
No outro dia comprava os jornais, nos quais circulavam as notícias dos assassinatos. Masturbava-se lembrando dos momentos de prazer com os rapazes e delirava ao lembrar dos seus crimes, chegou a lamber o fio da navalha e provar o gosto de sangue. Não sabia mais quem realmente era, mas tornara-se notório e orgulhava disso, a cidade e o país falavam dele, sua fama crescia consideravelmente, a imprensa dava ampla cobertura ao caso, devido à selvageria dos crimes e ao fracasso da polícia em capturá-lo.
Não sabia ao certo quantas foram suas vítimas, ao menos cinco mulheres tinha certeza e então, decidiu parar de matar. Contentou-se em levar sua vida dupla e sentia-se vingado da sociedade que o marginalizara. De dia era homem e amava as mulheres, muitas das quais, levava-as para a cama e as seviciava, de uma maneira violenta, outras amava-as com tamanha sensualidade, que as deixava maravilhadas com sua performance. Na verdade, o que fazia com elas era um reflexo do que queria para si. Ele as amava e ao mesmo tempo as odiava. A noite transformava-se no ser feminino que era e amava os homens, na calada sombria das ruas escuras. As vezes sentia-se uma mulher vistosa, tal e qual uma princesa em busca do príncipe encantado e outras vezes senti-se uma cadela no cio, louca para ser possuída animalescamente pelo membro de um macho.
Devido ao mistério em torno do assassino, ele tornou-se famoso, todos sabiam da sua história sanguinária e o chamaram pelo nome de JACK!
A solidão é um veneno que não mata, mas cega e enlouquece, nos seus desvarios e sua mente doentia ele pensava:
- Procuram um homem, mas Jack é uma mulher, Amelie! E... Por que não Jackeline? Nunca saberão a verdade!

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4 comentários :

  1. Não!!! Não acredito estar lendo essa pérola....!!!
    Excepcional Lena!!!! Lindo!!!
    Uma história que retrata muitas histórias reais, do conflito entre o "ser naturalmente" e o "ser forçado a parecer o que não se é..."!
    O filme Vestida Para Matar retrata essa situação... de forma diferente....
    Mas teu conto tem a sutileza, além do fio condutor ótimo por sinal, de narrar a história do Jack O Estripador, com uma temática de suspense e mistério sensacional...
    Você linkou a personagem de teu conto com a história do Jack...
    Quem sabe ele(ela) não teria passado pelo mesmo dilema????
    Em resumo, uma história ótima para entrar em qualquer almanaque de suspense!!
    Nota mil....li duas vezes!!!!!

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  2. Fantástica esta história Leninha...Para além de muitíssimo bem escrita, retratas muito bem a sociedade homofóbica e discriminatória em que continuamos a viver.

    Um beijo!

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  3. Amada Lena!

    Que texto, menina! Li e quando reli gostei ainda mais. Publique um livro de contos, Lena, será um sucesso. E por falar nisso, seu texto "A Divina Criação da Buceta" já está no nosso blog. Agradeço sua carinhosa permissão para o publicarmos.
    Beijo muito carinhoso, moça querida!

    {W_[amar yasmine]}

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  4. Imoral é deixarmos de ser que desejamos ser...

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