A Princesa Moura

De Simões de Lopes Neto
Adaptado para o blog por H. Thiesen

No Sul do Brasil existe um povo, conhecido por gaúchos, em torno da sua origem existem muitas lendas, esta é uma delas!
 Quando caiu o último reduto árabe na Espanha, alguns mouros, falsamente convertidos em novos cristãos, buscaram morada na América. Ligados à alquimia, trouxeram com eles sua princesa e o desejo de aqui "alçar de novo a Meia-Lua sobre a Estrela de Belém", isto é, fundar um país muçulmano.
Anhangá-pitã, (diabo vermelho em guarani) que os índios nativos do lugar acreditavam, por pura maldade, transformou a princesa moura em Teiniaguá (uma lagartixa), diferente das demais por ter encrustada na cabeça uma pedra preciosa, que cintilava como brasa e da cor do rubi.No tempo dos padres jesuítas, existia um moço, sacristão no Povoado de São Tomé, na Argentina, do outro lado do Rio Uruguai. Ele morava numa cela de pedra, nos fundos da igreja, na praça principal da aldeia. Num verão muito forte, com um sol de rachar, ele não conseguiu dormir a sesta (sono depois do almoço). Então, levantou-se, e foi até a beira de uma do lagoa refrescar-se. Levava consigo uma guampa, que usava como copo. Á beira da lagoa, uma coisa muito estranha aconteceu, ela toda fervia e largava um vapor sufocante e qual não foi, a surpresa do sacristão, ver sair d'água a própria Teiniaguá, na forma de lagartixa, com a cabeça de fogo, colorada como um carbúnculo. Ele, homem religioso, sabia que a Teiniaguá - os padres diziam isso - tinha parte com o Diabo Vermelho, o Anhangá-Pitã, que tentava os homens e arrastava todos para o inferno. Mas sabia também que a Teiniaguá à noite se transformava em uma linda mulher, uma princesa moura encantada, jamais tocada por homem, de corpo rijo e formoso. Aquele pelo qual ela se apaixonasse seria feliz para sempre. O sacristão num gesto rápido, aprisionou a Teiniagá na guampa e voltou correndo para a igreja, sem se importar com o calor. Passou o dia inteiro metido na cela, inquieto, mas louco que chegasse a noite.
Estava escrito: "Serás o meu par, quando quebrado o encantamento, do nosso sangue e de nossa carne, nascerá uma nova gente... se a cruz do teu rosário não me esconjurar!"
Quando as sombras finalmente desceram sobre a aldeia, ele não se sofreu: destampou a guampa para ver a Teiniaguá. Aí, o milagre: Ela se transformou na princesa moura, que sorriu para ele e pediu-lhe vinho, com os lábios vermelhos. Ora, vinho só o da Santa Missa. Louco de amor, ele não pensou duas vezes: roubou o vinho sagrado e ofereceu para que ela o bebesse. Beberam e amaram-se durante toda a noite.
No outro dia, o sacristão não prestava para nada. Mas, quando chegou a escuridão, tudo se repetiu. E assim foi, até que os padres finalmente desconfiaram, e numa madrugada invadiram a cela do sacristão. A princesa moura transformou-se em Teiniaguá e fugiu para as barrancas (margens íngremes) do rio Uruguai, mas o moço, embriagado pelo vinho e pelo amor, foi preso e acorrentado. Como o crime era horrível - contra Deus e a Igreja - foi condenado a morrer no garrote vil, na praça, diante da igreja que ele tinha profanado, para que todos vissem e aprendessem a lição.
No dia da execução, todo o povoado se reuniu diante da igreja de São Tomé. Então, lá das barrancas do rio Uruguai, a Teiniaguá pressentiu que o seu amado corria perigo. Com todo o poder da sua magia, começou a procurar o sacristão, por onde passava abria rombos e levantava a terra. Da fúria da Teiniaguá originou-se, vales enormes, montanhas e serros, conhecidos hoje em dia por Serra do Jarau. Chegou à igreja na hora que o carrasco iria apertar o garrote no pescoço do sacristão. Ouviu-se um estouro muito grande. Nessa hora, parecia que o mundo inteiro viria abaixo, houve fogo, fumaça e enxofre e tudo afundou em uma confusão e desapareceu. Quando as coisas clarearam, a Teiniaguá tinha libertado o sacristão e voltado com ele para as barrancas do rio Uruguai.
Eles atravessaram o rio e ficaram uns três dias perto do povoado de São Francisco Borja. Procuraram um lugar afastado, onde pudessem viver em paz. Encontraram no Quaraim (hoje Quaraí), na Serra do Jarau, a sua morada numa caverna muito funda e comprida. Essa caverna, no alto da Serra, ficou encantada. Virou uma Salamanca, que quer dizer "gruta mágica", a Salamanca do Jarau. Quem tivesse coragem poderia entrar lá, passaria por sete provas e se conseguisse sair, ficaria com o corpo fechado (imune para o mal e doenças), com sorte no amor e dinheiro para o resto da vida. A Salamanca do Jarau, escondia a Teiniaguá no fundo da gruta e o sacristão guardava a entrada, seria assim por duzentos anos, estava escrito.
Campeando uma boiada, um  tropeiro chegou à furna do Jarau. Ele sabia sobre a lenda, que sua avó, uma índia charrua, lhe contava quando era apenas um menino. Sabia também, tudo o que deveria fazer, como a velha havia lhe contado. Entrou na furna, encontrou um vulto branco e tristonho, saudou-o em nome de Deus, o vulto lhe passou as sete provas, as quais com "alma forte e coração sereno", venceu. Chegou até a Teiniaguá encantada. tocou-lhe a testa e a pedra preciosa. A lagartixa se transformou na Princesa Moura e lhe ofereceu sete escolhas, as quais ele rejeitou a todas. Ele queria mais, muito mais e disse para ela:
- Eu te queria a ti, porque tu és tudo."
Voltou à boca da furna e lembrou que: "tendo tido oferta de muito, não lograra nada, por querer tudo."  O seu egoismo, arrogância e avareza, fizeram-no esquecer das palavras da avó. Na saída da gruta, recebeu do vulto branco e tristonho, uma moeda de ouro, furada por um condão mágico e a pendurou no pescoço.
O tempo passava e o tropeiro cada vez mais rico e sozinho. Passava o tempo cismando com o que lhe acontecia. Sentia-se sufocado com a riqueza e mergulhado em solidão. 
Resolveu voltar à Salamanca do Jarau e em nome de Deus saudou o vulto, devolvendo-lhe a moeda.
"- Prefiro a pobreza dantes à riqueza, que não se acaba, é verdade, mas que parece amaldiçoada, porque nunca tem parelha e separa o dono dos outros. Fica-te com Deus."
Pela 3ª vez o nome do Senhor foi pronunciado e assim quebrou-se o encantamento.
O Jarau ficou transparente e o tropeiro viu as labaredas devorando tudo o que havia pela frente. A Teiniaguá se transformou na princesa moura e a moura em uma índia tapuia formosa. O vulto branco e tristonho, transformou-se em sacristão, e este por sua vez, num homem forte e viril.
Aquele par, juntado e tangido pelo destino, foi descendo as coxilhas, até alcançar a várzea limpa, plana e verde, finalmente estavam livres para se amarem.
O tropeiro, deu de rédea e devagar foi descendo as encostas com o coração aliviado. Era pobre como dantes, porém comeria em paz o seu churrasco e em paz beberia o seu chimarrão, em paz dormiria novamente, em paz estaria a sua vida.
A índia tapuia e o seu amado, viverão felizes até o fim do seus dias e do seu amor nasceram os primeiros gaúchos.

Fonte: Livro Lendas do Sul (João Simões de Lopes Neto)
Adaptação: Lena Lopez
A Atriz Juliana Paez, protagonizou a personagem Teiniaguá, na mini-série A Casa das Sete Mulheres, da Rede Globo.

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2 comentários :

  1. Ai Lena....
    Fantástica a história... e a adaptação é irrepreensível...!!
    Um texto cinematográfico (já disse isso umas várias vezes!!!). Sensacional.... e saber que os gaúchos são oriundos de uma história com tanta magia!!!
    Perfeito o post!!!

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  2. Boa Tarde!!!

    __Gaúcha Linda! Impossivel não viajar por entre as linhas de Tuas escritas...Impossivel Não se encantar com o encanto de Tua Poesia Sensual. Impossivel deixar de Dizer com Orgulho:__ Tu és Lena, Poetisa Sensual!
    Bjooos do Meu No Teu Coração!
    Tua Amiga Gaúcha!

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